Reescreva, Sarah!

Um conto dedicado aos meus alunos do nono ano, em especial para Isabella, que me inspirou a criar essa história com exatamente este título, e a Sarah que é a aluna do título.


Tudo começou em uma quinta-feira em sala de aula. Eu me lembro como se fosse hoje e, se eu fechar os olhos consigo sentir como se estivesse de novo lá, naquele momento.

O professor de Língua Portuguesa havia passado uma atividade de reescrita de um texto que havíamos produzido nas aulas anteriores, um conto com as características que o nosso livro didático indicava como contemporâneo: subjetividade, experiências estéticas e releitura de textos clássicos, sendo este último item o que nos levava a intertextualidade, algo que ele nos explicou várias vezes, mas que sempre esquecíamos.

Quinta-feira. Esse era o nosso último encontro da semana e era quebrado justamente pelo momento do intervalo. Tudo correu normalmente na aula que antecedia o recreio, o professor andando entre as carteiras, olhando como estávamos fazendo a atividade e apontando com o seu dedo coisas que seu olho rápido e cirúrgico identificava como um problema no nosso trabalho, que na maioria das vezes se resumia a não fazer parágrafo e escrever tudo em letras minúsculas, até aquelas que eram para iniciar com maiúsculas. Tudo isso acompanhado sempre de comentários sobre a nossa preguiça em realizar a tarefa e o seu inseparável copo de café.

O copo de café, ele sempre dizia que ele era o que lhe permitia dar as aulas. Sempre pareceu brincadeira, mas logo descobriríamos que não. Mas estou me adiantando...

Saímos mais cedo para o intervalo. O professor, a pedido de um dos colegas de sala, havia nos liberado antes para que pudéssemos pegar um bom lugar na fila da merenda: peixe frito com açaí, enquanto ele se encaminhava com a sua mochila, que mais parecia um casco de tartaruga, pendurada por apenas uma das alças, balançando os trocentos chaveiros e penduricalhos que ele carregava preso nelas e que vira e mexe despertava o nosso interesse.

Findo o intervalo, continuamos como de costume fora de sala. Era hábito, não tinha motivo algum além de uma prática entranhada nos nossos ossos de alunos que fazem de tudo para evitar ao máximo o retorno às atividades escolares. Fazíamos isso mesmo sabendo que quando o professor viesse, ele diria que o intervalo já havia terminado e que já tínhamos tarefa encaminhada e que era para termos voltado para sala a fim de terminá-la.

Era sempre a mesma bronca Mas por que vocês estão fora de sala? Vocês não sabem que já tem atividade pra terminar? Será que vocês precisam de babá pra ficar dizendo o que vocês têm que fazer? Eu, hein?! Sempre essas palavras e relembrar a situação me dá um misto de saudade, porque era sério e era chato, mas, hoje eu percebo, que não era pra ser ruim, ele queria criar na gente um senso de responsabilidade e autonomia, afinal estávamos já no final do ensino fundamental 2. Logo estaríamos no ensino médio, em outra escola e novos professores. Pessoas e espaços que não tínhamos ainda desenvolvido a familiaridade da qual desfrutávamos nessa escola, com os nossos colegas e amigos de sala e todas as outras pessoas que estavam ali, como o nosso professor ranzinza como ele mesmo dizia.

Devo confessar que eu me divertia e acho que os colegas também. O professor gostava passar essa imagem de bravo e durão, mas nós todos, ele inclusive, sabíamos que não era assim. Ele dava muitas broncas, é verdade, mas sempre tentava fazer gracinhas e escutar a gente, ou propor atividades que supostamente seriam divertidas e engraçadas (algumas até eram). Ele não era mau, mas abe como são adolescentes, né? E nós éramos isso, adolescentes recém-saídos da infância e que não entendiam os rolês da vida adulta. Mas os nossos pais, e posso afirmar com toda certeza que a minha mãe, gostava dele e do jeito que ele pensava (para o meu azar e, às vezes, desespero).

Enfim, voltamos para a sala e para a nossa tarefa de reescrita. O professor voltou para a atividade dele, de andar por entre a gente fiscalizando o nosso trabalho, sempre com o copo com café na mão. Mas não demorou muito para que ele simplesmente parasse no meio da sala, entre a minha fileira e a de outro colega. Ele parou olhando para o nada e, então começou a fazer uns barulhos estranhos, sabe. Uma coisa meio motor de carro quando engasga ou de moto que a gente não consegue dar a partida? Pois é, ele começou a fazer esse tipo de barulho que logo foi seguido por movimentos aleatórios de robô que começa a dar defeito.

— Professor, o senhor está bem? Quer que eu chame alguém? – eu perguntei, enquanto me levantava e chegava perto dele lhe tocando de leve o ombro.

Ele não respondeu, apenas fez mais barulhos estranhos e incompreensíveis e caiu estatelado no chão todo retorcido e com a língua de fora, o copo tombado ao seu lado, vazio.

Acho importante salientar esse fato, o do copo estar vazio (não escorreu nada dele quando o professor caiu no chão e nem espirrou líquido algum enquanto ele fazia barulho e se contorcia todo, antes da queda), porque penso que foi isso o que o fez dar defeito, a falta de café. Ou seja, ele dizer que só conseguia dar aula tomando café no fim se mostrou uma verdade incontornável. Tão incontornável, que ele não resistiu e morreu ali mesmo na sala de aula, na nossa frente.

A direção foi chamada e o corpo retirado. Todos os alunos dispensados, a maioria indiferente ao que tinha acontecido, porque, afinal de contas estávamos saindo antes do horário regular. Nós tivemos algumas conversas com a psicóloga que atendia a escola, mas, de modo geral, a vida seguiu logo. Ficamos um bom tempo sem professor de língua portuguesa. Nenhum dos outros professores tinha disponibilidade para assumir a turma, porém isso não nos preocupava. Tínhamos tempo vago para curtir, era isso que importava. O que não significava que não nos importávamos com o professor ou que não sentíamos um pouco a sua falta, mas, né? Éramos jovens e ele era um professor, alguém que só encontrávamos na escola e três vezes por semana, isso quando íamos todos os dias da aula dele.

Nunca entregamos a atividade de reescrita.

O professor que assumiu a nossa turma, quase dois meses depois, não quis saber muito o que estávamos fazendo antes e já chegou trazendo as próprias atividades, que enchiam o quadro e, consequentemente o nosso caderno, nos deixando sempre exaustos. Até tentamos fazer com que ele levasse em consideração o texto, mas ele disse que não perderia o tempo dele com atividades de um professor defunto, que era pra gente fazer o que ele mandava. Esse professor não tomava café. Também não usava meias com estampas de capivaras e nem conversava muito com a gente. Ele entrava simplesmente mal dando boa tarde e nunca perguntando com a gente estava, dizia qual era o assunto, colocava no quadro, explicava, passava uma lista de exercícios que ele nunca resolvia e ia embora sem nem dar tchau ou dizer até amanhã ou desejar um bom final de semana.

E a vida seguiu assim até mais menos as duas últimas semanas de aulas, quando vários alunos da turma começaram a relembrar do texto do nosso, naquele momento, antigo professor de português. Mas não apenas lembrar. Não era só isso. A lembrança parecia vir acompanhada de um incômodo como se estivéssemos em falta, por não termo entregue. Uma lembrança que nos causava certo arrepio, quando comentávamos sobre nas conversas paralelas, nos intervalos entre as aulas ou em outros momentos em que estávamos reunidos.

Era como se ele estivesse lá, andando por entre a gente dizendo Bora, pessoal, tem atividade para fazer. É pra hoje! Parem de enrolar! Claro que não havia ninguém lá e a gente mesmo depois dizia que isso era coisa da nossa cabeça. Eu embarcava nessa e também fazia piada com a situação. Fazia, porque, um dia, eu senti uma presença chegando perto, me olhando sobre os ombros, como ele tinha o hábito de fazer e sussurrando em meu ouvido: Reescreva, Sarah!

Aquilo me arrepiou de tal forma que no mesmo dia, ao chegar em casa, procurei pela atividade incompleta e a finalizei.

No final de semana, pedi a minha mãe que me levasse ao cemitério do Benguí, onde ele havia sido enterrado, para depositar o trabalho finalmente finalizado em cima do seu túmulo.

Isso já foi depois do último dia de aula. A maioria dos meus colegas de sala foi para outras escolas e eu nunca mais os vi. Nunca perguntei para aqueles poucos e raros que eu vez em quando encontrava se eles também escutaram o sussurro do professor cobrando a atividade nunca finalizada no final do ano letivo.

O que eu sei é que, por um bom tempo, sempre que eu deixava uma atividade por fazer fosse da escola ou de casa, e mesmo depois do trabalho, vinha à sensação de alguém olhando por cima do meu ombro e sussurrando Reescreva, Sarah.

Hoje não mais, nunca mais.



Belém, 20 de Maio de 2025.

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