Macarrão com picadinho

 — Égua, eu não acredito! Toda vez é a mesma coisa – o professor de Língua Portuguesa entrou esbravejando na sala dos professores.

Era já quase final do intervalo, que ele havia perdido quase que por completo, por ter sido chamado à direção para conversar sobre reclamações de alunos e sobre as atividades para a realização da prova SAEB e ENEM, que os alunos do terceiro ano fariam dali a poucas semanas.

Os professores presentes só olharam e não falaram nada, enquanto ele aborrecido ia largando as coisas dele sobre a mesa e se largava no sofá segurando o copo térmico com café que sempre o acompanhava.

Ele sorveu um gole.

Respirou fundo.

A professora de Sociologia veio até ele e perguntou o que tinha acontecido dessa vez. Ela era assim, sempre companheira e parceira, algo raro na Sala da Justiça, para não chamar de outra coisa.

— Ah, o de sempre, né? – ele respondeu com mais um suspiro, derrotado. — Esses alunos não querem fazer nada, não querem ser chamados à responsabilidade e descem reclamando para a diretora, que não filtra nada do que eles dizem, mesmo sabendo as boas peças que eles são. E depois vem cobrando que a gente seja mais compreensivo, que tenha empatia e tudo o mais. Só que em seguida cobra de mim os resultados das provas que eles estão prestes a fazer. Porque é claro que é responsabilidade minha que eles se deem bem nelas, afinal a escola pre-ci-sa mostrar bons números para a DRE, né?

— Eu já te falei, entra dá tua aula e sai – falou um dos professores de Física que estava sentado no outro lado da sala, em um das cadeiras que circundam a mesa da sala.

— Pois é! É o que eu também falo, esses alunos não querem nada com nada e nem adianta reclamar. Final do ano todo mundo vem encher o saco porque tá precisando de nota. Eu deixo eles se lascarem mesmo e o governo que se resolva – veio o outro professor de Física que sempre solta comentários como esses.

Os demais professores tudo no canto deles, por já saberem que a situação é sempre essa e que não adianta fazer muita coisa.

— Fácil para vocês dizerem, né?! As disciplinas de vocês não são as prioritárias das provas do Estado e nem é a que tem um peso enorme na aprovação do vestibular, por causa da redação... – o professor de Língua portuguesa revidou, deixando o clima na sala desconfortável e pesado.

— Pode até ser, mas pelo menos vocês têm muito menos turmas por causa da carga horária. E a gente que tem que dar conta de quase trinta turmas para conseguir o mesmo que vocês conseguem com umas cinco ou seis? Tá todo mundo sendo massacrado, cara! – soltou o professor de Educação Física, impaciente.

— Eu sei que estamos no mesmo barco, mas... Égua, quer dizer que eu não posso reclamar das coisas que eu passo? Sério, isso? – ele disse olhando em direção a mesa em que os demais professores do dia estavam sentados em volta.

— Ah, gente, isso não vai levar a lugar nenhum – comentou a professora de Sociologia.

— Quer saber? Eu vou lá pegar um pouco da merenda de hoje. Vocês sabem o que é?

— É macarrão com picadinho – respondeu o professor de Filosofia, que já estava lanchando.

O professor de Língua portuguesa então se levantou e foi até a copa pegar um combuquinha de macarrão com picadinho. Ele se surpreendeu com o sabor da merenda, que estava bem temperada. A carne com um gosto marcante de pimenta com cominho e algo a mais que ele não conseguia identificar.

— Nossa, mas isso aqui tá muito bom – ele disse retornando a sala dos professores.

— E não é? – concordou o professor de Filosofia dando a última colherada na própria combuquinha.

— Eu não sabia que a gente tinha voltado a receber carne vermelha como mistura. Nos últimos tempos só tinha sido frango ou charque – o professor de Língua portuguesa disse enquanto ia dando mais uma colherada na cumbuquinha cada vez mais vazia do que cheia, porque nessas horas fica meio difícil ver a vasilha meio cheia.

— Eu acho que isso deve ter sido compra da escola mesmo, porque nas outras em que estou tem tido picadinho não.

— Entendi.

— Pessoal, já tá na hora de subir. O intervalo acabou – foi dizendo a vice-diretora ao entrar na sala dos professores.

— Égua, eu acabei de chegar aqui. Parte do meu intervalo foi sendo chamado a atenção na direção. Vou subir agora não. Primeiro vou terminar de comer e tomar uma água – o professor de português respondeu. Os outros desconversaram e fingiram demência.

— O senhor que sabe, professor, depois não quero ouvir reclamação – ela soltou.

— Ah, é? Mas vocês sabem que não pode resolver nada do pedagógico e nem do administrativo no nosso momento de descanso. É um direito nosso – ele respondeu firme.

Nisso os professores foram se organizando e saindo. O último, o professor de História, falou baixinho enquanto passava pela vice-diretora “É, escola é máquina de moer professor, mesmo” e deu uma piscadinha em direção ao colega de português que ficava para trás, num ato de resistência e birra.

A semana passou arrastando, como sempre, e com a merenda tendo como acompanhamento carne moída todos os dias. O mesmo na semana que se seguiu, o que causou certa surpresa generalizada na escola. Ela foi servida dos mais variados tipo; com arroz e farofa, com ovo e salada e de novo com macarrão. Os alunos já pareciam enjoados de tanta carne e eram repreendidos pelos professores, afinal de contas, eles estavam tendo carne e isso não era pouca coisa quando se tratava de merenda. Porém, na sala dos professores, eles mesmo já começavam a reclamar.

— Talvez a escola tenha feito um contrato de fornecimento esse mês com o açougue aqui debaixo – levantou a bola o professor de Matemática, que preparava o nosso café de lei.

— Será? – alguém soltou.

— Pô, mas esse fornecimento nunca acaba, não? – reclamou a outra professora de Língua Portuguesa do ensino médio.

— Não sei. Mas, mudando de assunto. Por onde anda o professor de História? Desde a semana passada que ele não aparece e nem manda nada no grupo. Tá que ele quase nem fala nada lá, mas nem online ele tá aparecendo mais – comentou preocupado o professor de Língua portuguesa.

— Olha, eu não sei bem, mas parece que ele pegou uma licença. Naquela tarde, eu vi ele entrando na sala da direção, no final do turno da tarde – disse a professora de Sociologia, entrando na conversa.

— O que eu ouvi a diretora falando na coordenação, quando eu passei por lá mais cedo, é que ele tinha desistido das turmas aqui, para ficar numa escola em que ele já estava e que tinha aparecido mais carga horária, com a saída repentina de outro professor da escola – comentou o professor de Geografia.

— Ok, mas sumir assim? Estranho, né? – ponderou o professor de Língua portuguesa. — Da outra vez, quando ele saiu de licença, ele falou com a gente. Mandou até mensagem no meu privado... – terminou com um ar meio desapontado. — Escola é mesmo máquina de moer professor, como ele disse na última vez que o vi.

Todos concordaram em silêncio.

— Professor, a diretora quer falar com você, quando terminar as aulas da tarde – disse a vice-diretora colocando apenas o rosto pela porta da sala dos professores, deixando o clima ainda mais carregado.

— Tudo bem – o professor de Língua portuguesa respondeu.

Toc. Toc. Toc.

— Licença, diretora.

— Pode entrar, professor.

Ele assentiu, entrou e fechou a porta atrás de si, e depois se sentando a frente da diretora, que o observava com um ar grave, quase aborrecido.

— É o seguinte professor, os alunos continuam reclamando e o senhor não entregou o planejamento pedido na última vez que nos encontramos. A situação está ficando difícil pro senhor. Eles estão ameaçando ir direto à DRE e, se isso acontecer, eu terei que fazer um relatório e isso não vai ser bom para o senhor... – ela disse enquanto me olhava séria no fundo dos meus olhos, naquela salinha apertada em que ela se encastelava, monitorando todos os cantos da escola, por meio das câmeras instaladas naquele início de ano letivo.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, olhando a composição da sala. Sobre a cabeça da diretora que não desviava o olhar dele, a imagem de uma Nossa Senhora, também o mirando com atenção piedosa. Ele percebeu que não havia muito o que fazer. Ainda assim ele tentou argumentar. Em vão.

— Aqui – ela disse empurrando uma folha de papel já preenchida com os dados dele. Junto a folha, uma caneta lhe foi também oferecida.

Ele suspirou.

— Eu realmente sinto muito, professor – ela comentou, enquanto ele assinava a desistência... – A escola tem sido máquina de moer professor e eu não tenho o que fazer.

Quando ele foi se levantar, algo o acertou em cheio na cabeça.

Uma semana depois...

— Gente, esse daqui é o novo professor de Língua portuguesa. Ele vai ficar no lugar do professor que desistiu das turmas pra assumir em outra escola – disse a vice-diretora apresentando um rapaz jovem e de olhar cansado aos novos colegas na sala dos professores. Era hora do intervalo e ele tinha acabado de sair da sala da diretora, onde tinha assinado todos os documentos de lotação. — Se o senhor quiser, professor, tem merenda na copa – ela ofereceu antes de sair da sala, toda simpática e solícita como raramente era.

— Ah, obrigado – ele respondeu e, se virando para o colega mais perto, perguntou: — O que é o lanche hoje?

— Macarrão com picadinho, de novo.


Belém, 15 de fevereiro de 2026.


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