Vai pra casa, Renata!
— Professor! Eu ouvi uns barulhos estranhos ontem no terceiro andar, daí eu subi para ver o que estava acontecendo e não tinha ninguém! NINGUÉM!
Estávamos em meio a aula de textos narrativos e, como eu sou muito legal, tinha os deixado escolher que gênero ficcional eles gostariam de estudar. Entre ficção científica e terror e horror, eles ficaram com esses dois últimos. Eu estava doido para trabalhar com o outro, mas fazer o quê, né? Só me restava seguir o casquinho de Caronte... O comentário da Roberta foi uma resposta a uma pergunta que tinha feito sobre coisas que eles consideravam assustadoras na escola, porque logo eles fariam uma atividade de produção escrita em que deveriam criar uma historinha de terror escolar.
— Ah, que horas foi isso? – perguntei pra ela sem demonstrar muita surpresa com o fato. A escola sempre estava barulhenta, mesmo quando não tinha aluno. Depois de uns anos no ensino público e passando por alguns colégios, comecei a achar que isso era um efeito tipo de eco retardado, que continua ressoando mesmo depois de muito tempo e que depois vai se juntando com as coisas dos dias seguintes, como sedimentos, criando camadas e camadas de barulhos que vão se repetindo sem fim. Eram como estrelas, que mesmo mortas, ainda vemos a luz no escuro do céu.
— Foi no final do horário, profe. Eu achei que fosse algum aluno fazendo bagunça, mas não tinha ninguém – ela explicou. — Daí eu fui falar isso com a tia da limpeza, a Maria, e ela só riu de mim e eu fiquei sem entender nada.
— A cara da Maria fazer isso – eu ri também. Ela ficou ali também me olhando sem entender onde estava à graça no que ela tinha dito. — Mas, assim, Roberta, deve ter sido a Renata, ainda mais sendo no terceiro andar e na hora de saída da tarde. Pode ficar tranquila – expliquei.
— Renata? Mas não tinha ninguém, profe! Eu fui a todas as salas. E no banheiro também! – ela afirmou para eu ter certeza de que não poderia ser ninguém. Que não tinha nenhuma Renata lá.
— Não tinha ninguém mesmo. A Renata é a aluna que assombra a escola no turno da tarde. É óbvio que você não a veria – expliquei como quem diz que está frio ou que o céu é azul.
Do fundo da sala, Rogério falou que eu mais uma vez eu estava tirando com a cara deles. Todo mundo olhou pra ele e depois pra mim, para verem o que eu falaria para ele depois dessa acusação desaforada.
— Ué, e quando foi que eu tirei com a cara de vocês?
— No primeiro dia de aula, quando falou daquele aluno do sétimo ano, que ficou preso num globo de vidro. Até parece – ele disse com ares de deboche. Agora quer meter que tem uma aluna que perambula pelas salas no final do turno da tarde.
— Mas é verdade. Não sei porque eu ia querer assustar vocês com mentiras – disse para ele fazendo a minha melhor cara de inocente, e emendei: — Até a vice-diretora já foi perturbada pelo fantasma da Renata, podem perguntar pra ela.
Quando eu mencionei a vice-diretora eles se olharam. Imagino que tenha sido pelo fato dela não ser uma pessoa que passe a imagem de quem fica contando historinhas para meter medo em aluno. Ali o negócio era sério, com ela.
— Tá, vamos supor que você esteja falando a verdade, prô. Por que a Renata assombra a escola? – Roberta perguntou com a voz baixa, inclinando o corpo levemente para a frente, olhos bem abertos e se envolvendo parcialmente com os braços que estavam apoiados sobre a mesa da carteira.
— Então, a Renata...
Weee-ooon. Weee-ooon. Weee-ooon.
Então tocou a campa indicando que era hora do intervalo, interrompendo o início da história da Renata e de como ela ficou presa na escola.
— Gente, hora do intervalo. Na volta eu conto para vocês, mas só se todo mundo estiver em sala quando eu retornar. Não quero ninguém entrando depois de mim. Agora, vão – eu disse dispensando a turma.
Da porta, Manuel se vira pra mim e pergunta o que era a merenda.
— Macarrão com picadinho. Agora vai, garoto, pra você não ser o último da fila.
Ele sorriu e saiu correndo todo animado. E eu fui para a sala dos profes, pegar um café amargo de qualidade duvidosa e quem sabe, no caminho, descolar mais uma vez na semana uma cumbuquinha de macarrão com picadinho. Todo dia isso, bicho! Tédoidé.
— Ei, Rodolfo, tu nem sabes. Hoje os alunos do primeiro ano chegaram falando da Renata – fui dizendo enquanto apoiava as coisas na mesa e puxava em seguida uma cadeira para sentar ao lado do professor de história.
— E aí, como foi? – ele perguntou todo sorriso.
— Ah, uma aluna chegou falando de barulhos no fim do turno e que não tinha mais ninguém na escola e tal. Daí, falei da Renata, e eles nunca tinham escutado falar dela. Tanto tempo estudando aqui e eles não sabem dela. Triste – contei entre goles no café claramente requentado e o macarrão com picadinho absurdamente bem temperado quase me fazendo me arrepender de ter reclamado mentalmente de que era de novo a merenda da escola.
— Acho que é normal eles não saberem dela. Eles eram da manhã, né? – ele ponderou e olhou para mim, de lado.
— É, eram.
— Então, não acho que eles tinham como escutar sobre ela, já que ela só assombra do meio da tarde em diante. Fora que ela é nossa fantasminha recente, né? – e riu.
— Há uns cinco anos?
— Acho que sim. Você também deu aula pra ela, não deu?
— Sim, ela foi minha aluna só no segundo ano. Mas eu a via mais nas minhas outras aulas.
— Same here – e ele levantou a mão para que eu batesse nela, como se fôssemos uma equipe que ganha um ponto no jogo. — Mas, no meu caso, eu fui professor dela desde o nono ano.
Weee-ooon. Weee-ooon. Weee-ooon.
Era hora de voltar para a sala, os professores enrolavam como de costume para subir para o segundo round das aulas vespertinas, assim como os alunos que também circulavam por aí. Mas isso significava, nada, porque logo fomos convocados pela vice-diretora para entrar de novo em sala.
— Gente, a campa já tocou há dois minutos!
Eu e Rodolfo nos olhamos e rimos, com respeito. Porém, rimos.
— Escola é máquina de moer professor, lembra?
— E tem como esquecer?
— Vai pra que andar?
— Segundo. E tu, Rodolfo?
— Terceiro – ele disse com um ar de “queria não”.
Quando eu cheguei a sala, todos lá, sentados e comportados como nunca se viu antes nesse país chamado Pará. E nunca vai ver, porque, em um olhar mais atento, o Enzo estava, pelo visto, tentando matar aula de novo.
Resolvi ignorar.
— Muito bem, muito bem – os “parabenizei” por terem cumprido com o que tínhamos acordado. — E aí, o que acharam da merenda de hoje?
— Tava uma delícia.
— Eu não merendei, prô! Todo dia é sempre tudo igual, já tou cansado.
— Depois quando voltar a ser só suco com biscoito, vocês vão lamentar.
Ia perguntando e organizando as minhas coisas para retomar a aula. Roberta parece ter entendido a minha movimentação e soltou:
— E aí, profe, você não vai contar pra gente?
— Contar o quê, Roberta? – perguntei me virando em sua direção com um sorrinho cínico no rosto. Sim, sou desses que faz joguinhos com os alunos. É divertido.
— Para de graça, prô – disse alguém do fundo da sala.
— Ê, que isso? Isso é lá jeito de falar com o profe aqui?
— Desculpa. Mas é que a gente tá curioso pra saber o que aconteceu com a Renata.
— É – vários concordaram em uníssono.
Fiquei um tempo olhando para eles, inquietos, mas ainda assim, concentrados. Uma concentração ansiosa. Expectativa. Sentei-me à minha mesa meio de lado na cadeira, cruzei as pernas, tomei um gole e então, comecei a falar sobre a Renata.
— A Renata foi minha aluna aqui na escola, logo primeiro ano que comecei a trabalhar aqui na escola. Ela era do segundo ano e eu dava aula de PV na turma dela, ou seja, quase não nos encontrávamos. As aulas eram sempre no último horário e algo sempre acontecia que dificultava a entrada na sala deles. Ainda assim, eu sempre via a Renata pelos corredores. Vira e mexe ela parava a porta da sala de um dos primeiros anos em que dava aula de Língua portuguesa na época. E eu sempre ia lá falar com ela, perguntar o que ela queria e mandar ela pra sala de aula.
Eles não pareceram muito animados com esse início. Acho que tinham em mente que eu já começaria com algo fantástico e aterrorizante. Normal, eu pensei. Ainda não tínhamos entrado mesmo na parte do conteúdo em que compreenderíamos as histórias de terror e a função social delas. Sim, eu sei que isso parece ser muito ‘profundo’ para o primeiro ano, mas esse é o meu jeitinho. Continuei.
— Quase todo dia eu repetia a mesma coisa para ela. Era sempre pelo mesmo horário, os das aulas finais. Algumas vezes ela dizia que estava esperando alguma amiga de outra turma ser liberada para poderem ir embora juntas. Respondia a isso com, então espera lá embaixo no hall, que a aqui ninguém é peixe ou bicho de zoológico pra ser observado.
Eles riram. Sabiam que eu falava essas coisas mesmo para os alunos que ficavam pelos corredores tentando brechar as salas pelas janelas ou portas das salas.
— Quase todo dia a gente seguia esse ritual. E, quando eu não mandava ela descer, eu mandava ela ir embora para casa, porque ela, como muitos alunos, tinham a mania de ficar pela escola, mesmo já liberados para ir embora. Eu dizia “Vai pra casa, Renata! Égua, esse pessoal perturba pra ir embora cedo e quando são, não vão embora. E eu aqui tendo que cumprir horário...”. Às vezes eu também dizia que ia fazer eles voltarem pra sala pra aplicar um prova ou atividade avaliativa. Eles riam e começavam a se mexer pra ir embora.
Ansiedade aumentava em alguns na mesma proporção em que outros iam perdendo o interesse na história nada diferente do que eles viviam todos os dias na escola.
— Então, já no final do ano, acho que período de recuperação, Renata tava de novo perambulando pela escola, parecendo meio perdida. Soltei um “Vai pra casa, Renata” seguido de um “Se não você vai acabar ficando presa na escola que nem uma alma penada.
Senti o clima na sala mudar.
— Parece que era o último dia de aula mesmo. Não lembro direito. Só sei que nunca mais vi a Renata. Eu não era professor do terceiro no ano que se seguiu então, não a vi mais em sala. Só que eu também não a vi pelos corredores. Estranhei, mas talvez ela só tivesse sem passear pela escola ou tivesse sido transferida.
Essa foi a minha jogada antes de começar a falar das coisas estranhas que eles tanto queriam escutar.
— Mas então coisas estranhas começaram a acontecer na escola, sempre no final do turno da tarde. Portas sendo abertas, barulho de gente andando pelos corredores vazios. Durante semanas isso aconteceu. Até que um dia...
Nesse momento eu parei, tomei mais um gole de café e me sentei. Todo esse tempo, eu estava contando as coisas em pé, andando por entre as fileiras, fazendo com que os alunos ficassem me acompanhando com a cabeça e o corpo, a fim de escutarem melhor a história que lhes contava. Sentado, continuei em silêncio.
— Até que um dia o quê, professor?
— Oi? Até que um dia o quê?
— Não sei, você que tem que dizer! – Roberta disse numa voz esganiçada de exasperação.
Eu ri.
— Ah, até que um dia, no quadro da antiga sala dela, tava escrito “Eu quero voltar pra casa. Renata”. E agora, abram o caderno que vou passar uma atividade de produção de texto para vocês. Pra próxima aula e acho bom vocês fazerem, ou então podem acabar que nem a Sarah.
— Quem é Sarah, professor? – perguntou o Enzo, que entrava acompanhado da coordenadora pedagógica.
— Olha só quem voltou. Na hora certa de copiar a tarefa pra casa. Excelente, Enzo. Agora, senta – mandei. — E Sarah foi uma aluna de uma escola em que dei aula...
— Ih, lá vem mais uma potoca do profe de português.
— Vocês são muito céticos, depois que virarem personagens das histórias que conto nas aulas, não vão reclamar – me virei para o quadro e escrevi o comando.
Belém, 18 de Fevereiro de 2026.
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